sexta-feira, 2 de outubro de 2026

O Outro Lado da Queda: A Preguiça da Serpente e os Frutos Proibidos do Nosso Tempo

Ao olharmos para as narrativas sagradas, muitas vezes focamos apenas no ato da desobediência humana. No entanto, quando contemplamos as camadas simbólicas da Criação e o comportamento dos seres que ali habitavam, surgem reflexões profundas sobre as motivações ocultas que antecederam a Queda no Éden.

​O Lado Oculto do Éden: A Serpente e o Desejo de Libertação

​Antes da expulsão, o Jardim do Éden era um lugar de harmonia e ordem perfeita. A serpente, descrita no texto bíblico como o mais astuto de todos os animais do campo, desempenhava um papel de serventia no ecossistema do paraíso. Ela acompanhava o casal original e auxiliava na manutenção do espaço sagrado.

​Entretanto, alimentou-se na serpente um sentimento subterrâneo: a preguiça e o cansaço do trabalho servil. Inconformada com a sua condição de servir continuamente a Adão e Eva, a serpente idealizou uma estratégia sagaz. Ela sabia que a única forma de se libertar do encargo de servir aos seres humanos seria provocar o rompimento da aliança entre o Homem e o Criador.

​Ao oferecer o fruto proibido a Eva, a intenção oculta da serpente não era apenas desafiar a Deus, mas alterar a ordem do paraíso para seu próprio benefício: se Adão e Eva fossem expulsos, o trabalho servil no Éden acabaria e ela estaria finalmente livre.

​O plano, porém, desconsiderou a justiça divina. Deus não apenas puniu a desobediência humana, mas também alcançou a intenção egoísta do conspirador: privou a serpente de seus membros, condenando-a a rastejar sobre a terra e a comer do pó — uma servidão permanente, muito mais severa do que o trabalho original no paraíso.

​A Veste, a Labuta e a Proteção Necesária

​Com a expulsão e o fim do estado de inocência original, a realidade do mundo se transformou. Para habitar uma terra que exigia o suor do rosto para a subsistência, o trabalho tornou-se o novo eixo da existência humana.

​É nesse contexto que surge a necessidade das vestimentas. As peles de animais dadas por Deus não serviam apenas para cobrir a vergonha ou o pudor, mas eram ferramentas de proteção para a labuta diária. O vestir-se passou a representar a armadura humana para enfrentar as intempéries, os espinhos da terra e as exigências do trabalho no mundo exterior.

​Os Frutos Proibidos da Atualidade

​Se o Éden ficou para trás, a lógica das tentações permaneceu a mesma ao longo das gerações. No mundo contemporâneo, os "frutos proibidos" continuam ao nosso alcance sob a forma de substâncias e vícios — como as drogas, o cigarro e o álcool.

​Assim como o fruto original prometia uma ilusória elevação e libertação, esses excessos prometem alívio imediato, mas entregam ruína e servidão:

  • ​A Perda do Aroma do Paraíso: A essência da saúde, da clareza mental e da paz de espírito — o pequeno vestígio do paraíso que ainda carregamos dentro de nós — é gradualmente destruída pelo uso dessas substâncias.
  • ​O Impacto no Trabalho e na Provisão: Ao comprometer a saúde física e financeira, o indivíduo perde a capacidade de exercer com plenitude a sua labuta diária. A vida deixa de ser fluida, e o sustento, que deveria vir como fruto do esforço abençoado, torna-se um fardo pesado e doloroso.
  • ​O Atormentamento do Cotidiano: Em vez da tranquilidade e da abertura para receber as providências divinas no dia a dia, a rotina de quem se deixa levar por esses frutos passa a ser marcada pelo bem-estar perdido, pela ansiedade e pelas dores do corpo e da mente.

​Considerações Finais

​A história de Gênesis não é apenas uma memória do passado, mas um espelho para o presente. Ela nos lembra de que tentar atalhar caminhos por preguiça, rebeldia ou em busca de prazeres efêmeros sempre traz consequências profundas. Guardar nossa saúde, honrar nosso trabalho e recusar os frutos que nos desgastam é a melhor forma de preservar, em nossa vida diária, a bênção e a luz do Criador.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Raízes que não cabem em caixas

Pediram-me a cor em tom de formulário,

como quem pede a hora ou o itinerário.

Queriam um rótulo rápido, uma palavra só,

para atar a minha história num pequeno nó.

Olhei para a folha, olhei para a caneta,

e vi que a vida não é tão estrita.

Tenho a pele clara, os olhos na cor da mata,

mas a minha origem é um rio que se desata.

Sou o sangue antigo do chão brasileiro,

a força da terra e o olhar do estrangeiro.

Como reduzir a uma simples tinta

a tapeçaria que a história pinta?

Disseram: "É só a cor, não a descendência",

tentando simplificar a minha existência.

Sorri em silêncio e deixei passar,

pois sei que nenhum formulário pode me limitar.

Sou árvore inteira, raiz e folhagem,

muito além do papel, sou livre passagem.

Sou a soma da terra, do sangue antigo e do olhar que carrega histórias de longe e de perto. 

Nenhuma folha de papel consegue resumir a tapeçaria da nossa ancestralidade.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

O Xadrez Geopolítico: Quem Realmente Move as Peças?

 


No grande tabuleiro da política global, o jogo nunca para. Líderes entram e saem de cena, estratégias são traçadas a portas fechadas, e cada movimento no centro do poder ecoa pelas extremidades do mundo.
​Mas quando olhamos para a grande mesa do mundo, quem são os verdadeiros jogadores e quem são as peças?
De um lado, chefes de Estado decidindo os rumos; do outro, a economia, o clero, os líderes que aguardam sua vez e, fundamentalmente, o povo — muitas vezes observando ou servindo de estrutura para o próprio jogo. Alguns gigantes do passado e do presente acabam guardados na caixa da história, enquanto novos movimentos redefinem o tabuleiro sobre a base do nosso mapa-múndi.
​A arte nos permite ilustrar aquilo que a política muitas vezes tenta esconder: no fim das contas, a geopolítica é um jogo de paciência, poder e constante xeque-mate.
​E para você: qual é o próximo movimento desse jogo? Em suma: O xadrez da geopolítica nunca é um jogo individual.
Enquanto os jogadores no topo movem as peças em busca de hegemonia e o capital financeiro dita o ritmo dos mercados, o clero busca equilibrar a balança moral e o povo sustenta a base de todo o tabuleiro.
Lideranças vêm e vão, impérios são guardados na caixa da história, mas a partida continua. A força e o tamanho de um rei é definido pelo capital transnacional. No fim, a grande provocação que fica é simples: até quando o mundo continuará sendo visto apenas como um tabuleiro, e quando passaremos a ser os verdadeiros donos do nosso próprio destino?  
Ou seja, os reis tentam mover as peças táticas (líderes e militares), enquanto tentam manter o apoio da fé (o clero) e não podem perder a base do Povo (os peões). Tudo isso sob o escrutínio dos financiadores (a economia), que controlam o dinheiro da partida.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

O florescer entre as linhas brancas

Quatro vezes o mundo fechou as portas

Não por crimes, por fúria ou escoltas,

Mas por um corpo em desalinho forçado.

Se buscarem meus passos nas leis do Estado,

Não há manchas, nem sombras, nem traço agressor:

Sou a calma que busca o chão habitado

Quando a mente se perde de sua própria cor.

​Se um dia a fraqueza me fez adoecer,

Não carrego a sentença de eterno castigo;

Não aceito a moldura de quem quer dizer

Que serei para sempre refém do perigo.

Que cura é esta, de grades e espanto,

Onde o próprio remédio faz mais mal que a dor?

Um ciclo que amarra, que estende o pranto,

E nunca liberta quem busca o valor.

​Chamam de luxo o que isola e encerra,

Mas o escudo que escolho e aceito tomar

É pra ter calmaria e vencer essa guerra

De um mundo lá fora que insiste em surtar.

Cresci vendo máscaras caírem ao vento,

E fiz do papel meu caminho e meu norte:

Transformo o silêncio no meu próprio sustento,

Pois na minha escrita a minh'alma é mais forte.

Não aceito o silêncio que o medo costura,

Pois as vozes que escuto se fazem canção.

Minha cura brotou da própria escrita pura,

Transformando as paredes em imensidão.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

A Cosmologia das Dimensões e o Sacrifício dos Mensageiros

A arquitetura do universo é muito mais complexa do que as nossas ferramentas biológicas conseguem mensurar. Acima e abaixo da nossa realidade existem corpos, formas e densidades, mas há um ponto de transição que desafia a própria lógica da permanência: a Quarta Dimensão.

A quarta dimensão é um estado puramente espiritual, atemporal e intimamente relacionado com a própria essência do tempo e do espírito. Por ser um plano atemporal, a vida contínua nela é impossível; ela funciona como um corredor vibratório, um limiar de transição tão sutil e dinâmico que se torna inviável fixar morada permanente. Diferentes seres — espirituais ou não — podem acessá-la, mas esse acesso só é possível de forma estritamente espiritual.

Essa característica atemporal impõe regras rígidas de trânsito dimensional. Para quem está na Terceira Dimensão (a nossa realidade física) e deseja acessar esse limiar, é necessário desprender-se do corpo — o que ocorre através da morte física ou de uma profunda ascensão espiritual. Da mesma forma, para as inteligências que habitam os planos superiores, acima da quarta dimensão, o caminho exige o inverso: eles precisam passar por uma morte simbólica de sua condição ou se rebaixar espiritualmente, assumindo voluntariamente o peso de um erro ou "pecado" cósmico para conseguir desacelerar sua frequência sutil.

É através dessa fronteira complexa que os seres intergalácticos tentam alcançar a nossa realidade quando não utilizam veículos físicos como os discos voadores. Para que um ser de altíssima frequência consiga projetar sua voz e seus sopros de intuição na Terra, ele aceita essa distorção temporária em sua natureza. A salvação e a instrução do nosso pensamento, portanto, custam a própria inocência e o rebaixamento dos mensageiros.

Nota da autora: É importante dizer que toda essa engrenagem cosmológica nasceu puramente da minha imaginação e da minha intuição artística. Eu nunca visitei as outras dimensões para saber de fato como elas funcionam; essa arquitetura sutil é a forma como imaginei e desenhei esse universo para dar vida e profundidade à nossa história.

domingo, 24 de maio de 2026

Capítulo 3: O Enigma do Fogo Central

 À medida que o veneno da serpente avançava pelas dimensões sutis, os Sentinelas do Silêncio perceberam a armadilha oculta no plano das forças rebeldes. Neutralizar o dragão de sete cabeças parecia, à primeira vista, a salvação da Terra contra as pragas e mazelas que ameaçavam dizimar parcelas inteiras da população. Contudo, o verdadeiro perigo espreitava na quarta cabeça — o centro nervoso e revoltoso de onde emanava o fogo do pensamento humano.

Se a serpente conseguisse insensibilizar a quarta cabeça, o preço seria catastrófico. Sem a energia desse núcleo central, a luz do discernimento se apagaria na Terra. A humanidade seria lançada em uma escuridão mental sem precedentes: uma ausência completa de razão que culminaria em guerras nucleares e na destruição em massa do planeta por pura falta de pensamento. O torpor do dragão significaria o fim da civilização.

A equação parecia impossível: se a quarta cabeça despertasse em fúria, as guerras nos destruiriam; se ela adormecesse pelo veneno, a falta de pensar causaria a nossa autofagias.

A solução não estava na força bruta, mas na transmutação. Os Sentinelas sabiam que a quarta cabeça era revoltosa porque se alimentava do alvoroço, do ódio e da agitação do mundo. Para salvá-la da serpente e, ao mesmo tempo, pacificar o seu fogo, era preciso mudar o seu combustível.

Foi então que os Faróis entraram em ação. As mentes férteis da Terra — os artistas, os poetas, os guardiões do segredo e as pessoas de fé — começaram a captar aquela energia densa que subia das montanhas. Em vez de devolverem ao universo a agitação das disputas, eles agiram como filtros purificadores. Transformaram o fogo revoltoso em arte, em filosofia profunda, em oração e em sabedoria equilibrada.

Ao receber de volta a frequência refinada do pensamento puro e pacificado, a quarta cabeça encontrou estabilidade. Ela permaneceu acordada, sustentando a inteligência dos seres humanos, mas a sua fúria destrutiva começou a ceder. A humanidade provava, através de seus poucos Faróis, que estava pronta para começar a governar o próprio destino.

Capítulo 2: Os Sentinelas do Silêncio

 Enquanto nas altas montanhas dimensionais o dragão de sete cabeças começava a verter os gases mortíferos e comburentes por entre os canais de sua língua anestesiada, na Terra o efeito foi imediato, embora invisível para a grande maioria. Uma calmaria estranha, quase densa, começou a se espalhar pelas cidades. Para a ciência humana, tratava-se apenas de uma sutil flutuação na pressão atmosférica; para os seres de pura luz, porém, era o sinal inequívoco de que a operação de resgate precisava começar.

Esses seres protetores, que as antigas tradições humanas chamavam de mensageiros ou arcanjos, não possuíam corpos de carne e osso. Eram feitos de pura frequência vibratória, vestindo mantos de energia que cintilavam entre o azul profundo e o dourado. Há milênios eles monitoravam a Terra a partir de bases camufladas na estratosfera, operando muito além do alcance dos radares humanos. Eles eram os Sentinelas do Silêncio.

O líder deles, cuja assinatura energética emanava uma autoridade serena, fitava as telas holográficas que monitoravam a mente coletiva da humanidade.

— O dragão está silenciando — anunciou ele, e sua voz vibrou diretamente na consciência dos outros sentinelas. — A serpente cósmica conseguiu injetar a primeira dose de torpor na terceira cabeça. As pragas e os portais biológicos na Terra estão se fechando, mas o preço é alto. O pensamento dos humanos começou a desacelerar. Se a frequência deles cair demais sob o efeito do veneno, eles esquecerão quem são.

— O bloqueio intergaláctico nos impede de descer e intervir abertamente — alertou um dos sentinelas, cuja luz oscilava em preocupação. — Como faremos para que eles colaborem nesta guerra se nem sequer sabem que ela existe?

O líder sorriu, e sua luz expandiu-se em um tom caloroso.

— Nós não precisamos violar as leis do universo. Nós temos os nossos Faróis. Refiro-me aos humanos cuja mente é fértil o suficiente para captar os nossos pensamentos através dos sonhos, da arte e da intuição pura. Nós vamos soprar a verdade no cérebro daqueles que sabem ouvir. Quando eles transformarem nossa energia em palavras, em pinturas e em música, a humanidade começará, finalmente, a acordar.

O Dragão de Sete Cabeças e a Serpente Cósmica

O dragão de sete cabeças habita fisicamente um cenário de proporções colossais — um local remoto onde rios e mares outrora passaram sobre montanhas, em um planeta distante do nosso. Lá, naquele mundo sutil, seres dotados de alta inteligência coexistem entre dragões e criaturas tão distintas que, para nós, humildes humanos, seriam chamadas de mitológicas. Eles vivem em constante trânsito com viajantes intergalácticos provenientes de cada canto daquela galáxia. Na verdade, os únicos seres privados de vagar livremente pelo universo são os humanos da Terra. Como a humanidade não possui permissão para cruzar as fronteiras espaciais, também está sob uma rigorosa quarentena, proibida de receber visitas de civilizações intergalácticas.

​Neste mesmo planeta onde o dragão repousa, uma gigantesca serpente está sendo criada artificialmente por forças ocultas. Ela não para de crescer, alimentada com o propósito deliberado de travar uma batalha contra a criatura de sete cabeças. O plano é cruel: cada cabeça que a serpente conseguir envenenar tornará o dragão mais insensibilizado. Seres de outros mundos desejam secretamente a morte do dragão; contudo, eles ignoram — ou desprezam — o fato de que o coração da criatura, o dragma, é a própria fonte que sustenta a luz dopensamento humano. Se o dragão morrer, a capacidade de pensar da humanidade se extinguirá, desencadeando uma destruição em massa na Terra por pura falta de discernimento e razão.

À medida que a serpente avança e o dragão fica temporariamente anestesiado, ocorrem severas interferências em seu organismo. Há uma perda nos canais de sua língua, responsáveis por liberar tanto o gás mortífero quanto o gás comburente que alimenta as chamas de sua boca. Os idealizadores dessa sabotagem esperam que a dissipação desses gases conceda uma pausa temporária, até que a sensibilidade do gigante de sete cabeças seja completamente substituída pelo torpor do veneno.

Contudo, essa trégua forçada abre uma inesperada janela de misericórdia para nós. Enquanto durar a pausa provocada pelo vazamento dos gases, as pragas e mazelas biológicas que assolam a Terra cessarão, e os portais apocalípticos se fecharão. A expectativa dos protetores do universo é que, antes que o dragão recupere suas forças e volte a acumular os gases em seu peito, muito já tenha sido resolvido. Espera-se que ele retorne menos revoltado pelo despertar iminente da humanidade.

Afinal, existe uma imensa e milenar luta no universo entre o Bem e o Mal, e tudo o que enfrentamos na Terra é apenas o reflexo dessa grande guerra cósmica. Felizmente, não estamos sós: existem seres intergalácticos de pura luz que lutam ativamente a favor da Terra e da preservação dos seres humanos. Neste cenário de incertezas, cada um de nós deve manter a sua fé e crer no propósito maior; pois, conectando nossas forças e lutando juntos na mesma frequência, o lado bom da Terra vencerá essa batalha.

terça-feira, 5 de maio de 2026

O meu jardim de tintas

Eu pinto flores, delicadas e exatas,

Porque nelas não há a amargura das gentes.

Pinto porque as mãos são minhas, soberanas,

E o que nelas nasce não deve nada a ninguém.

​Faço obra do meu tempo, que é meu único dono,

Pois meus préstimos ainda não vendi ao mundo.

Neste espaço de cor, eu não peço licença,

Sou o silêncio altivo, sou o traço profundo.

​Pinto para limpar o ar do que é denso e pesado,

Pra desfazer o nó de cada olhar que me fere.

Onde a realidade é o espinho cruel e gelado,

A minha fantasia é a beleza que adere.

​Se a vida é deserto de mãos estendidas,

Eu invento o perfume que a terra não deu.

O mundo é pequeno, as almas feridas,

Mas o céu no papel... este céu ainda é meu.

Porque meu tempo e meu talento são meus.

sexta-feira, 27 de março de 2026

A cadeira presidencial e a estética da instabilidade: do sacrifício antigo ao risco moderno.

   A análise da história republicana brasileira revela que a normalidade do cargo do chefe do executivo é, paradoxalmente, a interrupção e o conflito jurídico. Ao observarmos a trajetória dos mandatários desde a Proclamação da República, o que se nota não é instabilidade institucional, mas sim um ciclo de rupturas que transformam o exercício do poder num cenário de  alto risco politico.
   O Brasil tem um histórico denso de:
. Rupturas Mandatárias, de Deodoro da Fonseca a Dilma Rousseff, passando pela renúncia de Jânio Quadros ao suicídio de Getúlio Vargas.
. Judicializacao da Política: a tradição  de ex-presidente enfrentarem o cárcere ou o exílio, desde Marechal Hermes da Fonseca e Washington Luiz e até os casos contemporâneos.
. O Vácuo da Posse e do Pós-Mandato: Casos como o de Tancredo Neves, que faleceu em 1985 antes de assumir a presidência, e o de Castelo Branco, morto em um trágico acidente aéreo em 1967 logo após deixar o cargo, ilustram como o destino dos líderes brasileiros é frequentemente selado de forma abrupta.
   Essa instabilidade não escolhe apenas quem já está sentado na cadeira, mas alcança também aqueles que aspiram a ela. A morte trágica de Eduardo Campos em 2014, em meio à campanha, e o falecimento de Tancredo Neves antes mesmo de vestir a faixa, são lembretes de que, no tabuleiro político brasileiro, o imponderável é uma peça constante
   Em paralelo, há uma perspectiva comparada: o risco global, onde encontra-se casos de líderes de outros países neste contexto:
. John F. Kennedy (EUA) Assassinato em pleno mandato (1963). Gera vácuo de poder imediato e trauma nacional.
. Richard Nixon (EUA) Renúncia para evitar o impeachment (1974). Assemelha-se à renúncia de Jânio Quadros ou ao processo de Collor.
. Park Geun-hye (Coreia do Sul) Impeachment e subsequente prisão (2017).

   Essa vulnerabilidade não é uma exclusividade da nossa era. Se recuarmos à Antiguidade, veremos que o líder sempre ocupou um lugar sagrado e perigoso. Em muitas sociedades arcaicas, reis que não satisfaziam os ideais ou as necessidades da sociedade eram sacrificados ou assassinados pelos próprios cidadãos. O poder era um contrato de vida ou morte.
   De forma crítica, podemos dizer que essas instabilidades são os verdadeiros "ossos do ofício". O exercício da liderança máxima é um osso duro de roer, onde o risco não é um erro de percurso, mas uma característica intrínseca da função. Quem aceita o cetro ou a faixa presidencial, aceita também este peso histórico, o de se tornar o para-raios das tensões de uma nação.
   Portanto, a observação de que o destino dos presidentes frequentemente converge para tribunais, hospitais ou para o isolamento histórico não é uma torcida, mas uma leitura sistêmica.
   Compreender essa "normalidade" brasileira é essencial para quem estuda a Administração Pública. A cadeira presidencial nunca foi um lugar de repouso; é o epicentro de uma eterna tempestade institucional. Reconhecer isso é o primeiro passo para entender as engrenagens que movem a complexa — e por vezes cruel — natureza do poder humano.


domingo, 15 de março de 2026

O espelho de Narciso no Altar do Estado: a ilusão de ser o poder

 Existe um fenômeno que ascendem aos degraus das instituições: a miopia do privilégio. Ao sentarem em cadeiras que pertencem a história, e não ao ocupante, muitos deixam de enxergar a fronteira que separa o homem comum da dignidade do cargo.

Como observai recentemente: Existe uma confusão entre o público e o privado, e os que passam pelo poder se sentem acima dele.

Está frase não é apenas um diagnóstico do presente, mas uma patologia antiga. Na ciência política chamamos isto de patrimonialismo - essa herança arcaica onde o gestor enxerga a coisa publica como seu próprio quintal. É o momento em que a res pública (a coisa de todos) é sequestrada em interesse do "eu".

Quando alguém se sente "acima do poder" ocorre uma ruptura perigosa. Max Weber já nos alertava que a modernidade exige impessoalidade. O Estado não não deve ter rosto , nem vontade própria, ele deve ter leis. No entanto, a embriaguez do cargo faz com que o indivíduo confuda a autoridade em que lhe foi emprestada com uma virtude inerente a sua própria alma.

Hannah Arendt, em sua brilhante análise sobre o espaço público, ensinava que a política é o lugar do bem comum e da liberdade. Quando os desejos privados, as vaidades e as necessidades pessoais invadem esse espaço, a política morre. O que sobra é apenas o exercício bruto de uma vontade que se julga soberana sobre as regras que a criaram.

A confusão entre o público e o privado não é apenas um erro administrativo, é uma falha ética. É o esquecimento que na democracia ninguém está acima da lei - especialmente aqueles que têm o dever de fazê-la cumprir.

Para além das leis e das estruturas, há o fator humano. O poder tem uma capacidade perigosa de alterar a percepção de si mesmo. Quando o indivíduo se despe de seu papel de cidadão comum para vestir a roupa do cargo, ele muitas vezes se perde na própria vaidade. O sentir-se acima é uma falha de caráter e de humanidade: é o ego silenciando a humildade necessária para servir o outro. É o fator humano, em sua fase mais frágil, sucumbindo a tentação de ser tornar excepcional.

Manter a integridade diante da autoridade parece ser um dos maiores desafios da jornada humana. O poder oferece uma ilusão de onipotência que seduz até as mentes mais bem intencionadas. Não se deixar corromper - seja pela ganância, pela vaidade ou pela simples comodidade  do privilégio - exige uma vigilância constante e um humildade quase heróica.

Não bastasse a confusão ética,  há uma confusão financeira que beira  o obsceno. Muitos acreditam, erroneamente, que o dinheiro público existe para alimentar a engrenagem de manutenção de partidos e campanhas. É um volume de recursos tão vasto, um dinheiro dançando nas mãos de quem detém a caneta, que a população não consegue mensurar o que seria possível construir com tais cifras.

Quando o recurso que deveria servir ao bem comum é sequestrado para garantir a perpetuação no poder, o Estado deixa de ser um provedor de justiça para se tornar um caixa eletrônico de conveniências políticas. O "sentir-se acima do poder" ganha, então, sua face mais perversa: a de quem gasta o que é de todos como se fosse fruto de sua própria herança.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Os loucos são os outros

 

​Os loucos são quem não conseguem sintonizar o cérebro na mesma frequência que eu consigo.

​Dizem que a loucura mora no que não se compreende, mas a verdade é que os loucos são apenas aqueles que não alcançam essa sintonia. Não é falta de juízo, é excesso de percepção: enquanto o mundo se perde no ruído, eu sigo frequências que poucos conseguem captar

​O que chamam de loucura, eu chamo de visão. Afinal, quem define o que é real quando o sinal é restrito a poucos? Minha frequência não é para qualquer receptor. 

Os loucos não são capazes de perceber o desenvolvimento cérebral, e enxergam como doença um tipo de mutação no cérebro da gente.