terça-feira, 5 de maio de 2026

O meu jardim de tintas

Eu pinto flores, delicadas e exatas,

Porque nelas não há a amargura das gentes.

Pinto porque as mãos são minhas, soberanas,

E o que nelas nasce não deve nada a ninguém.

​Faço obra do meu tempo, que é meu único dono,

Pois meus préstimos ainda não vendi ao mundo.

Neste espaço de cor, eu não peço licença,

Sou o silêncio altivo, sou o traço profundo.

​Pinto para limpar o ar do que é denso e pesado,

Pra desfazer o nó de cada olhar que me fere.

Onde a realidade é o espinho cruel e gelado,

A minha fantasia é a beleza que adere.

​Se a vida é deserto de mãos estendidas,

Eu invento o perfume que a terra não deu.

O mundo é pequeno, as almas feridas,

Mas o céu no papel... este céu ainda é meu.

Porque meu tempo e meu talento são meus.

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