Eu pinto flores, delicadas e exatas,
Porque nelas não há a amargura das gentes.
Pinto porque as mãos são minhas, soberanas,
E o que nelas nasce não deve nada a ninguém.
Faço obra do meu tempo, que é meu único dono,
Pois meus préstimos ainda não vendi ao mundo.
Neste espaço de cor, eu não peço licença,
Sou o silêncio altivo, sou o traço profundo.
Pinto para limpar o ar do que é denso e pesado,
Pra desfazer o nó de cada olhar que me fere.
Onde a realidade é o espinho cruel e gelado,
A minha fantasia é a beleza que adere.
Se a vida é deserto de mãos estendidas,
Eu invento o perfume que a terra não deu.
O mundo é pequeno, as almas feridas,
Mas o céu no papel... este céu ainda é meu.
Porque meu tempo e meu talento são meus.
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