Pediram-me a cor em tom de formulário,
como quem pede a hora ou o itinerário.
Queriam um rótulo rápido, uma palavra só,
para atar a minha história num pequeno nó.
Olhei para a folha, olhei para a caneta,
e vi que a vida não é tão estrita.
Tenho a pele clara, os olhos na cor da mata,
mas a minha origem é um rio que se desata.
Sou o sangue antigo do chão brasileiro,
a força da terra e o olhar do estrangeiro.
Como reduzir a uma simples tinta
a tapeçaria que a história pinta?
Disseram: "É só a cor, não a descendência",
tentando simplificar a minha existência.
Sorri em silêncio e deixei passar,
pois sei que nenhum formulário pode me limitar.
Sou árvore inteira, raiz e folhagem,
muito além do papel, sou livre passagem.
Sou a soma da terra, do sangue antigo e do olhar que carrega histórias de longe e de perto.
Nenhuma folha de papel consegue resumir a tapeçaria da nossa ancestralidade.
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