quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Raízes que não cabem em caixas

Pediram-me a cor em tom de formulário,

como quem pede a hora ou o itinerário.

Queriam um rótulo rápido, uma palavra só,

para atar a minha história num pequeno nó.

Olhei para a folha, olhei para a caneta,

e vi que a vida não é tão estrita.

Tenho a pele clara, os olhos na cor da mata,

mas a minha origem é um rio que se desata.

Sou o sangue antigo do chão brasileiro,

a força da terra e o olhar do estrangeiro.

Como reduzir a uma simples tinta

a tapeçaria que a história pinta?

Disseram: "É só a cor, não a descendência",

tentando simplificar a minha existência.

Sorri em silêncio e deixei passar,

pois sei que nenhum formulário pode me limitar.

Sou árvore inteira, raiz e folhagem,

muito além do papel, sou livre passagem.

Sou a soma da terra, do sangue antigo e do olhar que carrega histórias de longe e de perto. 

Nenhuma folha de papel consegue resumir a tapeçaria da nossa ancestralidade.