sexta-feira, 27 de março de 2026

A cadeira presidencial e a estética da instabilidade: do sacrifício antigo ao risco moderno.

   A análise da história republicana brasileira revela que a normalidade do cargo do chefe do executivo é, paradoxalmente, a interrupção e o conflito jurídico. Ao observarmos a trajetória dos mandatários desde a Proclamação da República, o que se nota não é instabilidade institucional, mas sim um ciclo de rupturas que transformam o exercício do poder num cenário de  alto risco politico.
   O Brasil tem um histórico denso de:
. Rupturas Mandatárias, de Deodoro da Fonseca a Dilma Rousseff, passando pela renúncia de Jânio Quadros ao suicídio de Getúlio Vargas.
. Judicializacao da Política: a tradição  de ex-presidente enfrentarem o cárcere ou o exílio, desde Marechal Hermes da Fonseca e Washington Luiz e até os casos contemporâneos.
. O Vácuo da Posse e do Pós-Mandato: Casos como o de Tancredo Neves, que faleceu em 1985 antes de assumir a presidência, e o de Castelo Branco, morto em um trágico acidente aéreo em 1967 logo após deixar o cargo, ilustram como o destino dos líderes brasileiros é frequentemente selado de forma abrupta.
   Essa instabilidade não escolhe apenas quem já está sentado na cadeira, mas alcança também aqueles que aspiram a ela. A morte trágica de Eduardo Campos em 2014, em meio à campanha, e o falecimento de Tancredo Neves antes mesmo de vestir a faixa, são lembretes de que, no tabuleiro político brasileiro, o imponderável é uma peça constante
   Em paralelo, há uma perspectiva comparada: o risco global, onde encontra-se casos de líderes de outros países neste contexto:
. John F. Kennedy (EUA) Assassinato em pleno mandato (1963). Gera vácuo de poder imediato e trauma nacional.
. Richard Nixon (EUA) Renúncia para evitar o impeachment (1974). Assemelha-se à renúncia de Jânio Quadros ou ao processo de Collor.
. Park Geun-hye (Coreia do Sul) Impeachment e subsequente prisão (2017).

   Essa vulnerabilidade não é uma exclusividade da nossa era. Se recuarmos à Antiguidade, veremos que o líder sempre ocupou um lugar sagrado e perigoso. Em muitas sociedades arcaicas, reis que não satisfaziam os ideais ou as necessidades da sociedade eram sacrificados ou assassinados pelos próprios cidadãos. O poder era um contrato de vida ou morte.
   De forma crítica, podemos dizer que essas instabilidades são os verdadeiros "ossos do ofício". O exercício da liderança máxima é um osso duro de roer, onde o risco não é um erro de percurso, mas uma característica intrínseca da função. Quem aceita o cetro ou a faixa presidencial, aceita também este peso histórico, o de se tornar o para-raios das tensões de uma nação.
   Portanto, a observação de que o destino dos presidentes frequentemente converge para tribunais, hospitais ou para o isolamento histórico não é uma torcida, mas uma leitura sistêmica.
   Compreender essa "normalidade" brasileira é essencial para quem estuda a Administração Pública. A cadeira presidencial nunca foi um lugar de repouso; é o epicentro de uma eterna tempestade institucional. Reconhecer isso é o primeiro passo para entender as engrenagens que movem a complexa — e por vezes cruel — natureza do poder humano.


Nenhum comentário:

Postar um comentário